Observatório dos Tribunais Superiores
Súmula Vinculante 10
A Súmula Vinculante 10 estabelece que órgão fracionário de tribunal (câmara, turma ou seção) viola a cláusula de reserva de plenário, prevista no artigo 97 da Constituição, quando deixa de aplicar lei ou ato normativo do Poder Público, total ou parcialmente, sem declarar formalmente a inconstitucionalidade. A questão precisa ser submetida ao pleno ou órgão especial.
Enunciado oficial
Viola a cláusula de reserva de plenário (CF, artigo 97) a decisão de órgão fracionário de tribunal que, embora não declare expressamente a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo do Poder Público, afasta sua incidência, no todo ou em parte.
- Situação
- vigente
- Órgão
- Plenário
- Fonte
- STF, Aplicação das Súmulas no STF
Em português claro
O artigo 97 da Constituição exige que a declaração de inconstitucionalidade de lei ou ato normativo pelos tribunais seja feita pela maioria absoluta de seus membros, reunidos no plenário ou no órgão especial. A Súmula Vinculante 10 impede que essa exigência seja contornada por um caminho indireto: o de simplesmente ignorar a norma no caso concreto, sem dizer que ela é inconstitucional.
Quando a súmula se aplica?
A súmula incide quando um órgão fracionário de tribunal, isto é, uma turma, câmara ou seção formada por parte dos julgadores, afasta a aplicação de uma lei ou de um ato normativo do Poder Público sem que a questão constitucional tenha passado pelo plenário ou órgão especial.
Situações típicas em que a discussão aparece:
- A decisão reconhece que a norma existe e é aplicável ao caso, mas deixa de aplicá-la invocando princípios constitucionais.
- O julgado adota interpretação conforme a Constituição que, na prática, retira a eficácia do texto legal ou de parte dele.
- O órgão fracionário nega vigência a dispositivo legal com fundamento em incompatibilidade com a Constituição, ainda que sem usar a palavra inconstitucionalidade.
O ponto central é o resultado prático: se a norma deixou de produzir efeitos por razão de ordem constitucional, o caminho do artigo 97 deveria ter sido percorrido.
Quando não se aplica ou como se distingue?
Não toda recusa em aplicar uma lei atrai a súmula. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal distingue o juízo de inconstitucionalidade de outras operações comuns na atividade judicial.
- Interpretação da norma dentro das possibilidades de seu texto, sem excluir sua incidência por conflito com a Constituição.
- Conclusão de que a norma não alcança os fatos do caso, por delimitação do seu âmbito de aplicação.
- Solução de conflito entre normas pelos critérios usuais, como norma posterior ou norma específica, sem juízo de validade constitucional.
- Aplicação de entendimento já firmado pelo próprio plenário do tribunal, pelo Supremo Tribunal Federal em controle concentrado ou em repercussão geral, hipótese em que a remessa ao órgão colegiado maior é dispensada.
Também não basta a parte afirmar que houve afronta à súmula. É preciso demonstrar, na fundamentação da decisão atacada, que a norma foi efetivamente afastada por motivo constitucional, e não apenas interpretada de modo desfavorável.
O que fazer quando a súmula é aplicada ao seu caso?
Duas posições são possíveis. Se a decisão do órgão fracionário afastou norma que lhe favorecia, o instrumento próprio é a reclamação ao Supremo Tribunal Federal, cabível contra ato que contraria súmula vinculante. A reclamação pode levar à cassação da decisão, com devolução do caso ao tribunal de origem para que a questão constitucional seja submetida ao plenário ou órgão especial.
Antes disso, convém apresentar embargos de declaração ou o recurso adequado, apontando de forma expressa a inobservância do artigo 97, para que o próprio tribunal possa corrigir o rumo do julgamento.
- Identifique no acórdão o trecho em que a norma deixou de ser aplicada e o fundamento invocado.
- Verifique se esse fundamento é constitucional ou se se trata de mera interpretação da lei.
- Confira se há pronunciamento anterior do plenário do tribunal ou do Supremo sobre a mesma norma, o que afasta a exigência de remessa.
- Avalie o cabimento da reclamação, atenta a que ela não substitui recurso próprio nem serve para reabrir a discussão sobre os fatos.
Na posição contrária, quem defende a decisão pode sustentar que houve interpretação legítima da norma, delimitação do seu alcance ou aplicação de precedente vinculante, situações que não configuram declaração implícita de inconstitucionalidade.
Os números
Quantas decisões citam a Súmula Vinculante 10
De 2023 a 2025, 8.506 decisões do STJ e do STF na base do Precedentes citaram a Súmula Vinculante 10 (dados até STJ 22/09/2026; STF 28/09/2026).
Universo: decisões do STJ e do STF na base do Precedentes (precedentes.com.br). Período: julgadas ou publicadas de 2023 a 2025 (a data é a do julgamento ou, quando ela falta, a da publicação). Critério: citação lida no texto da decisão por expressão regular; a decisão que só menciona conta igual à que aplica. Citação não é aplicação e não indica resultado do julgamento. Metodologia.
- 20171.018 (0,19%)616 (1,3%)
- 2018716 (0,13%)811 (1,5%)
- 2019934 (0,15%)1.350 (2,8%)
- 2020457 (0,08%)1.511 (3,4%)
- 2021141 (0,06%)1.170 (2,3%)
- 2022407 (0,07%)1.121 (2,1%)
- 2023663 (0,12%)1.329 (2,2%)
- 20241.028 (0,16%)2.038 (3,0%)
- 2025974 (0,14%)2.474 (3,6%)
- 2026parcial668 (0,13%)2.054 (3,8%)
| Ano | STJ | % do STJ | STF | % do STF |
|---|---|---|---|---|
| 2017 | 1.018 | 0,19% | 616 | 1,3% |
| 2018 | 716 | 0,13% | 811 | 1,5% |
| 2019 | 934 | 0,15% | 1.350 | 2,8% |
| 2020 | 457 | 0,08% | 1.511 | 3,4% |
| 2021 | 141 | 0,06% | 1.170 | 2,3% |
| 2022 | 407 | 0,07% | 1.121 | 2,1% |
| 2023 | 663 | 0,12% | 1.329 | 2,2% |
| 2024 | 1.028 | 0,16% | 2.038 | 3,0% |
| 2025 | 974 | 0,14% | 2.474 | 3,6% |
| 2026 (parcial até STJ 22/09/2026; STF 28/09/2026) | 668 | 0,13% | 2.054 | 3,8% |
Decisões recentes que citam a súmula
STF, Rcl 99.246 AgRSTF
STF, Rcl 99.246 AgR, Rel.ª Min.ª Cármen Lúcia, Primeira Turma, j. 28/9/2026, DJe 30/9/2026 · 30/09/2026
EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL NA RECLAMAÇÃO. CONSTITUCIONAL. RESPONSABILIDADE SUBSIDIÁRIA DA ADMINISTRAÇÃO. DESCUMPRIMENTO DAS DECISÕES PROFERIDAS NA AÇÃO DECLARATÓRIA DE CONSTITUCIONALIDADE N. 16 E NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO N. 760.931, TEMA 246. SUSCITADA CONTRARIEDADE À SÚMULA VINCULANTE N. 10. COMPROVAÇÃO DE CULPA DA…
Ver decisão no site do STFSTF, Rcl 98.242 EDSTF
STF, Rcl 98.242 ED, Rel.ª Min.ª Cármen Lúcia, Primeira Turma, j. 28/9/2026, DJe 30/9/2026 · 30/09/2026
EMENTA: EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NA RECLAMAÇÃO. CONVERSÃO EM AGRAVO REGIMENTAL. DIREITO EMPRESARIAL. FALÊNCIAS. ALEGADA CONTRARIEDADE AO TEMA 90 DA REPERCUSSÃO GERAL E À SÚMULA VINCULANTE N. 10 DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL: INOCORRÊNCIA. IMPOSSIBILIDADE DE INTERPOSIÇÃO DE RECURSO EXTRAORDINÁRIO. AUSÊNCIA DE ESGOTAMENTO…
Ver decisão no site do STFSTF, Rcl 99.438 AgRSTF
STF, Rcl 99.438 AgR, Rel.ª Min.ª Cármen Lúcia, Primeira Turma, j. 28/9/2026, DJe 30/9/2026 · 30/09/2026
EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL NA RECLAMAÇÃO. CONSTITUCIONAL. RESPONSABILIDADE SUBSIDIÁRIA DA ADMINISTRAÇÃO. DESCUMPRIMENTO DAS DECISÕES PROFERIDAS NA AÇÃO DECLARATÓRIA DE CONSTITUCIONALIDADE N. 16 E NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO N. 760.931, TEMA 246. SUSCITADA CONTRARIEDADE À SÚMULA VINCULANTE N. 10. COMPROVAÇÃO DE CULPA DA…
Ver decisão no site do STFSTF, Rcl 89.967 AgRSTF
STF, Rcl 89.967 AgR, Rel.ª Min.ª Cármen Lúcia, Primeira Turma, j. 29/6/2026, DJe 30/9/2026 · 30/09/2026
EMENTA: CONSTITUCIONAL E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NA RECLAMAÇÃO. AFASTAMENTO DA INCIDÊNCIA DO ART. 535, § 8º, DO CLT. INTERPRETAÇÃO CONFORME À CONSTITUIÇÃO. INOBSERVÂNCIA DA CLÁUSULA DE RESERVA DE PLENÁRIO. VIOLAÇÃO À SÚMULA VINCULANTE 10. RECURSO PROVIDO PARA JULGAR PROCEDENTE A RECLAMAÇÃO. I. CASO EM EXAME…
Ver decisão no site do STFSTF, Rcl 98.302 AgRSTF
STF, Rcl 98.302 AgR, Rel.ª Min.ª Cármen Lúcia, Primeira Turma, j. 28/9/2026, DJe 30/9/2026 · 30/09/2026
EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL NA RECLAMAÇÃO. TRABALHISTA. ALEGADO DESRESPEITO AO DECIDIDO NA ARGUIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO FUNDAMENTAL N. 324, NA AÇÃO DECLARATÓRIA DE CONSTITUCIONALIDADE N. 48, NAS AÇÕES DIRETAS DE INCONSTITUCIONALIDADE NS. 3.991 E 5.625 E NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO N. 958.252, TEMA 725. ALEGADA…
Ver decisão no site do STF
Perguntas frequentes
Dúvidas comuns sobre a Súmula Vinculante 10
O que é órgão fracionário de tribunal?
É o colegiado formado por parte dos julgadores do tribunal, como turma, câmara ou seção. Ele julga a maioria dos recursos, mas não pode decidir sozinho sobre a inconstitucionalidade de uma lei, matéria reservada ao plenário ou ao órgão especial.
A súmula vale para decisões de juiz de primeiro grau?
Não. A cláusula de reserva de plenário se dirige aos tribunais. O juiz que atua isoladamente, em primeiro grau, pode deixar de aplicar norma que considere inconstitucional no caso concreto, sem necessidade de remessa a órgão colegiado.
Preciso esgotar os recursos antes de apresentar reclamação?
A reclamação não substitui o recurso cabível e pressupõe decisão que já não possa ser corrigida pelas vias ordinárias adequadas. Convém verificar, caso a caso, qual o instrumento próprio e o momento de utilizá-lo.
A decisão que usa interpretação conforme a Constituição viola a súmula?
Pode violar, se a interpretação adotada retirar, na prática, a eficácia do dispositivo legal ou de parte dele. O exame depende da fundamentação concreta do julgado e do efeito produzido sobre a norma.
Se a reclamação for julgada procedente, o processo acaba?
Não. Em regra, a decisão é cassada e o caso retorna ao tribunal de origem, que deverá observar o procedimento do artigo 97, submetendo a questão constitucional ao plenário ou órgão especial antes de novo julgamento.
Como citar
Schwab Alonso Advogados, Observatório dos Tribunais Superiores, Súmula Vinculante 10. Dados: Precedentes (precedentes.com.br), base até STJ 22/09/2026; STF 28/09/2026. Disponível em: https://schwabealonsoadv.com/tribunais-superiores/sumulas/sumula-vinculante-10.
Os números desta página estão no arquivo CSV do Observatório. Veja também a página de dados no Precedentes.
Conteúdo informativo elaborado pela equipe do Schwab Alonso Advogados. Autores: João Pedro Schwab Sampaio (OAB/DF nº 83.647) e Marisa Alonso (OAB/DF nº 2.916).
Dados atualizados em 30/09/2026. Decisões na base até: STJ 22/09/2026; STF 28/09/2026.
Este conteúdo não substitui a análise individual do seu caso. Citação não é aplicação: a contagem inclui decisões que apenas mencionam o enunciado e não diz se o recurso foi ou não provido. Como os números são contados.
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