Observatório dos Tribunais Superiores
Súmula 279 do STF
A Súmula 279 do STF estabelece que o recurso extraordinário não serve para simples reexame de prova. Ela incide quando o pedido feito ao Supremo depende de rediscutir fatos, documentos, depoimentos ou laudos já valorados pelas instâncias anteriores, e não de interpretar diretamente um dispositivo da Constituição.
Enunciado oficial
Para simples reexame de prova não cabe recurso extraordinário.
- Situação
- vigente
- Órgão
- Plenário
- Fonte
- STF, Aplicação das Súmulas no STF
Em português claro
O que a Súmula 279 quer dizer na prática?
O recurso extraordinário é o recurso dirigido ao Supremo Tribunal Federal para discutir ofensa à Constituição. Ele não funciona como uma terceira instância de revisão de fatos. A prova é apreciada pelo juiz de primeiro grau e pelo tribunal que julgou a apelação, e essa apreciação, em regra, encerra a discussão sobre o que aconteceu no caso.
Por isso, quando o recurso pede que o Supremo leia novamente depoimentos, contratos, perícias, extratos bancários ou laudos para chegar a uma conclusão diferente sobre os fatos, aplica-se a Súmula 279 e o recurso não é conhecido, isto é, não tem o mérito analisado.
A súmula aparece em todos os ramos do direito: matéria penal, em que se pretende rediscutir autoria ou materialidade; direito administrativo e previdenciário, em que se busca reavaliar requisitos de tempo de serviço ou condições de trabalho; direito civil, em que se discute, por exemplo, a natureza de determinado valor penhorado; e direito ambiental, em que se pretende reavaliar o estado de conservação de um bem.
Quando a discussão não é de prova e a súmula não incide?
Existe diferença entre reexaminar prova e revalorar a qualificação jurídica dos fatos já fixados pelo tribunal de origem. Se o recorrente aceita o quadro fático descrito na decisão recorrida e sustenta que, sobre aqueles mesmos fatos, houve interpretação equivocada de norma constitucional, a discussão é de direito.
Alguns pontos que ajudam a distinguir:
- Reexame de prova: o recurso afirma que a testemunha não merecia credibilidade, que a perícia chegou a conclusão errada ou que os documentos demonstram o contrário do que o tribunal concluiu.
- Questão de direito: o recurso parte dos fatos tal como narrados pelo tribunal e discute qual norma constitucional incide sobre eles e com que alcance.
- Ofensa reflexa: quando a alegada violação à Constituição só apareceria depois de interpretar lei ordinária, decreto ou regulamento, o obstáculo é a natureza indireta da ofensa, frequentemente somada à Súmula 279.
Vale notar que a existência de repercussão geral reconhecida sobre um tema constitucional não afasta, por si só, o obstáculo da súmula. Se a aplicação da tese ao caso concreto exigir revolver o conjunto probatório, o recurso continua barrado.
Como estruturar o recurso para não cair na Súmula 279?
O trabalho técnico começa antes do recurso extraordinário, nas instâncias ordinárias, onde os fatos devem ser provados e registrados com clareza no acórdão. No Supremo, a redação do recurso precisa demonstrar que a controvérsia é jurídica.
- Transcrever os trechos do acórdão recorrido que fixam os fatos e trabalhar a partir deles, sem contestá-los.
- Indicar de forma expressa o dispositivo constitucional que se considera violado e explicar por que a violação é direta.
- Demonstrar a repercussão geral, ou seja, a relevância da questão para além do caso individual.
- Evitar pedidos de nova valoração de laudos, testemunhas e documentos, ainda que a conclusão do tribunal pareça equivocada.
O que fazer se a súmula já foi aplicada ao seu caso?
A decisão que nega seguimento ao recurso extraordinário com base na Súmula 279 é, em regra, atacável por agravo regimental, no prazo legal, perante o próprio colegiado do Supremo. Nesse agravo, a argumentação útil é mostrar que o recurso não pedia reexame de prova, apontando o fundamento constitucional autônomo da controvérsia.
Quando realmente há dependência de nova análise fática, a insistência tende a ser infrutífera, e a avaliação honesta desse cenário evita a discussão de teses sem viabilidade processual. A leitura atenta da decisão recorrida costuma indicar qual dos dois caminhos se apresenta.
Os números
Quantas decisões citam a Súmula 279 do STF
De 2023 a 2025, 61.647 decisões do STJ e do STF na base do Precedentes citaram a Súmula 279 do STF (dados até STJ 22/09/2026; STF 28/09/2026).
Universo: decisões do STJ e do STF na base do Precedentes (precedentes.com.br). Período: julgadas ou publicadas de 2023 a 2025 (a data é a do julgamento ou, quando ela falta, a da publicação). Critério: citação lida no texto da decisão por expressão regular; a decisão que só menciona conta igual à que aplica. Citação não é aplicação e não indica resultado do julgamento. Metodologia.
- 20171.777 (0,34%)9.020 (19,7%)
- 20182.011 (0,36%)10.602 (19,1%)
- 20191.704 (0,28%)8.531 (17,6%)
- 20202.333 (0,41%)5.219 (11,9%)
- 20211.910 (0,88%)11.513 (22,3%)
- 20222.862 (0,52%)16.926 (32,0%)
- 2023780 (0,14%)18.979 (31,6%)
- 2024660 (0,10%)21.452 (31,4%)
- 2025878 (0,12%)18.898 (27,2%)
- 2026parcial995 (0,19%)14.546 (26,7%)
| Ano | STJ | % do STJ | STF | % do STF |
|---|---|---|---|---|
| 2017 | 1.777 | 0,34% | 9.020 | 19,7% |
| 2018 | 2.011 | 0,36% | 10.602 | 19,1% |
| 2019 | 1.704 | 0,28% | 8.531 | 17,6% |
| 2020 | 2.333 | 0,41% | 5.219 | 11,9% |
| 2021 | 1.910 | 0,88% | 11.513 | 22,3% |
| 2022 | 2.862 | 0,52% | 16.926 | 32,0% |
| 2023 | 780 | 0,14% | 18.979 | 31,6% |
| 2024 | 660 | 0,10% | 21.452 | 31,4% |
| 2025 | 878 | 0,12% | 18.898 | 27,2% |
| 2026 (parcial até STJ 22/09/2026; STF 28/09/2026) | 995 | 0,19% | 14.546 | 26,7% |
Decisões recentes que citam a súmula
STF, ARE 1.609.888STF
STF, ARE 1.609.888, Rel. Min. André Mendonça, Segunda Turma, j. 15/9/2026, DJe 30/9/2026 · 30/09/2026
Ementa: Direito Processual Penal E Constitucional. Agravo em Recurso Extraordinário. TRÁFICO DE DROGAS E ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO. Ofensas meramente indiretas, se existentes. Necessidade de reexame do conjunto fático-probatório. Súmula 279/Stf. Negativa de seguimento. I. CASO EM EXAME *. Recursos extraordinários com…
Ver decisão no site do STFSTF, ARE 1.615.263 AgRSTF
STF, ARE 1.615.263 AgR, Rel.ª Min.ª Cármen Lúcia, Primeira Turma, j. 28/9/2026, DJe 30/9/2026 · 30/09/2026
EMENTA: AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. DIREITO AMBIENTAL E ADMINISTRATIVO. PATRIMÔNIO HISTÓRICO, CULTURAL E ARQUITETÔNICO. ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE MARINHOS. CONSERVAÇÃO E RESTAURAÇÃO DE BEM TOMBADO. NECESSIDADE DE ANÁLISE DA LEGISLAÇÃO INFRACONSTITUCIONAL APLICÁVEL AO PROCESSO E REEXAME…
Ver decisão no site do STFSTF, ARE 1.613.760STF
STF, ARE 1.613.760, Rel. Min. André Mendonça, Segunda Turma, j. 15/9/2026, DJe 30/9/2026 · 30/09/2026
EMENTA: DIREITO CONSTITUCIONAL E PROCESSUAL PENAL. RECURSO EXTRAORDINÁRIO. CONDENAÇÃO POR CRIMES COMUNS (ART. 89 DA LEI 8.666/1993 E ART. 1º, §2º, do DECRETO-LEI 201/1967. COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA COMUM. AUSÊNCIA DE DENÚNCIA POR CRIMES ELEITORAIS. REVOLVIMENTO PROBATÓRIO. RECURSOS DESPROVIDO. I. CASO EM EXAME 1…
Ver decisão no site do STFSTF, ARE 1.600.798 AgR-segundoSTF
STF, ARE 1.600.798 AgR-segundo, Rel. Min. André Mendonça, Segunda Turma, j. 15/9/2026, DJe 30/9/2026 · 30/09/2026
Ementa: Direito civil. Segundo agravo regimental no recurso extraordinário com agravo. Impenhorabilidade de benefício previdenciário. Mínimo existencial. Reexame de fatos e provas. Enunciado nº 279 da Súmula/STF. Negado provimento ao recurso I. Caso em exame 1. O agravo regimental foi interposto contra decisão pela…
Ver decisão no site do STFSTF, RE 1.488.318 AgRSTF
STF, RE 1.488.318 AgR, Rel. Min. Cristiano Zanin, Primeira Turma, j. 18/8/2026, DJe 30/9/2026 · 30/09/2026
Ementa: AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. ADMINISTRATIVO. APOSENTADORIA ESPECIAL. DIREITO À INTEGRALIDADE E À PARIDADE NA APOSENTADORIA ESPECIAL VOLUNTÁRIA DE AGENTE PENITENCIÁRIO QUE INGRESSOU NO SERVIÇO PÚBLICO ANTES DA EC Nº 41/2003. RECONHECIMENTO DA REPERCUSSÃO GERAL DA QUESTÃO CONSTITUCIONAL…
Ver decisão no site do STF
Perguntas frequentes
Dúvidas comuns sobre a Súmula 279 do STF
A Súmula 279 ainda está em vigor?
Sim. O enunciado permanece vigente e é um dos fundamentos mais utilizados para negar seguimento a recursos extraordinários que dependem de nova análise de fatos e provas.
Ela se aplica também a processos criminais?
Sim. Em matéria penal, alegações sobre autoria, materialidade, credibilidade de testemunhas ou suficiência das provas para a condenação atraem a súmula, pois exigem reavaliação do conjunto probatório já examinado pelas instâncias anteriores.
Existe diferença entre a Súmula 279 do STF e a Súmula 7 do STJ?
As duas tratam da mesma limitação, cada uma no seu recurso: a Súmula 279 se refere ao recurso extraordinário, dirigido ao Supremo; a Súmula 7 se refere ao recurso especial, dirigido ao Superior Tribunal de Justiça.
Se o tribunal ignorou uma prova dos autos, cabe recurso extraordinário?
A alegação de que uma prova foi desconsiderada normalmente é tratada como matéria de fato ou de legislação processual, o que costuma atrair a súmula. O caminho usual é buscar o esclarecimento da omissão ainda na instância de origem.
Qual recurso cabe contra a decisão que aplicou a Súmula 279?
Em regra, agravo regimental ao colegiado do Supremo, dentro do prazo legal, com demonstração de que a questão levada ao Tribunal é constitucional e independe de nova valoração de provas.
Como citar
Schwab Alonso Advogados, Observatório dos Tribunais Superiores, Súmula 279 do STF. Dados: Precedentes (precedentes.com.br), base até STJ 22/09/2026; STF 28/09/2026. Disponível em: https://schwabealonsoadv.com/tribunais-superiores/sumulas/sumula-279-stf.
Os números desta página estão no arquivo CSV do Observatório. Veja também a página de dados no Precedentes.
Conteúdo informativo elaborado pela equipe do Schwab Alonso Advogados. Autores: João Pedro Schwab Sampaio (OAB/DF nº 83.647) e Marisa Alonso (OAB/DF nº 2.916).
Dados atualizados em 30/09/2026. Decisões na base até: STJ 22/09/2026; STF 28/09/2026.
Este conteúdo não substitui a análise individual do seu caso. Citação não é aplicação: a contagem inclui decisões que apenas mencionam o enunciado e não diz se o recurso foi ou não provido. Como os números são contados.
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